domingo, 14 de abril de 2013

Para meu pai, com amor.


      Na qualidade de Assistente Social, acompanhei, por muitos anos, idosos em várias circunstâncias. Sempre me chamou a atenção, e chegava a me parecer absurdo, como muitos deles, em algum momento, geralmente no apagar das luzes de suas vidas, chamavam por seus pais, ou mencionavam seus nomes, como se ainda fossem pequenas e indefesas crianças.  Aquilo me soava tão absurdo, tão fora de contexto. Como poderia uma pessoa beirando ou passando os 90 anos de vida, clamar tão ardentemente por aquele colo tão longínquo?
     
      Da mesma forma, sempre achei que morrer,  já com idade avançada, seria um processo tranquilo. Para quem vai, e para quem fica.  Acreditava que a idade nos aproximaria de forma natural do fim da vida e que, nesta circunstância, a morte seria encarada como visita esperada.  Para os que ficassem, o consolo daquele ente querido ter tido uma vida longa e de realizações, amenizaria a dor da perda.  

      Com a morte de meu pai, todas minhas teorias foram por agua abaixo.  Assaltado por uma doença agressiva e terminal em plena vitalidade de seus 86 anos e meio de vida, deixou em todos que o rodeavam um vazio inexplicável. Nem ele acreditava que seu final estivesse chegando. Afinal, tinha tanto ainda a fazer, tantos frutos que plantou para ver crescer, que parecia impossível que estivesse, “tão cedo”, se despedindo da vida e de nós, que o amávamos tanto. Não importa que eu tenha 52 anos de idade, nem que já tenha meus próprios filhos adultos. Ainda sou sua filha pequena e preciso muito de sua presença ao meu lado.  O fato de nos tornarmos pais não faz, em momento algum, com que sejamos menos filhos.

Hoje entendo perfeitamente aqueles velhinhos a quem assistia,  incrédula, chamarem por seus pais.  Neste momento,  tenho a sensação de que seguirei chamando por ele todos os dias, todas as horas. De cética, me transformei em alguém que deseja ardentemente acreditar que existe algum tipo de vida após a morte que me permita esperar pelo dia em que me verei envolvida pelo seu afeto e proteção novamente.


           Alguns amores são grandes demais para que possam se esgotar em uma única vida.

“Obe Raskin, filho de Maurício e Vitória Raskin, foi o segundo de quatro irmãos, Aizik (falecido), Leão e David.  Nasceu em 18 de maio de 1926  no município de Quatro Irmãos, berço da colonização judaica no Rio Grande do Sul.  Foi casado, por 60 anos e 10 dias, com Ena Raskin, com quem teve quatro filhos: Sergio, Circe, Gilberto e Vitória, que lhe deram nove netos: Daniela, Eduardo, Fernando, Renata, Roberto, Maurício, Henrique, Andréa e Joana.  Exerceu a odontologia por mais de 60 anos com competência, humildade e amor. Fez parte da história de muitas famílias e do bairro Floresta em Porto Alegre, onde manteve seu consultório desde o início até o final de sua vida profissional.  Era um homem de poucas palavras e muitas atitudes.  Foi filho,  irmão, genro, esposo, pai, sogro, avô, tio e cunhado  afetuoso e  presente. Além da grande lacuna, deixará muitas ternas lembranças em todos aqueles que tiveram o prazer de conviver com ele.”




2 comentários:

  1. é... é isso...
    e é lindo querida!
    o tamanho dessa dor é também o tamanho da tua força. beijo

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    1. Flavia, um beijão pra ti. Os amigos sempre são a parte boa dos momento difíceis!

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